Wednesday, August 09, 2006

CAFÉ 4 (café amargo)

Eram como catedrais vermelhas e metálicas que afagavam um copo branco e quente naquele café sujo do Rossio. Tremiam e cravavam-se no vidro, incógnitas da mesa do canto. Observava compreensiva as suas unhas, gostava delas... Pensar que haviam já morto um homem, mas isso ninguém sabia. Era segredo de catedrais. Mas todos os homens que tinha tido.., isso parecia que toda a gente no café o sabia em silêncio. Claro que o matou! Ou era ele ou ela! Mas talvez a culpa nem tenha sido dele, talvez tenha sido da bebida. Ultimamente, sem saber porquê, pensava muito nisso... “Coitadinho..”. Por ele conheceu a rua, perdoou-lhe na hora em que o matou. Mais tarde conheceu Xavier. Pela primeira as unhas cravaram amor... Abandonou-a sete anos mais tarde. De vez em quando ainda o via, com mulheres muito mais novas num carro novo. Desfaleciam as unhas envelhecidas. Era nos três homens do costume que agora descia suavemente as unhas, nunca mais as havia cravado. Nem de amor, nem de desamor. “Coitadinhos..também estão sem ninguém”. Sempre ajudavam para pagar a conta de casa e para as catedrais, vermelhas e metálicas de amor.