Wednesday, August 09, 2006

CAFÉ 2 (café amargo)

Pensou que o café já não abrisse mais. “Hoje de manhã estava fechado!”. Tinha já passado por ali bem cedo com as cabras. “Afinal sempre abriu!” Tinham passado 15 dias “Sim 15 dias bem contados”... Parou, o milho junto ao ribeiro poderia esperar um pouco, as pernas, e os quase setenta anos também agradeciam o descanso. “Deve ter sido agora à tarde”. Olhou de longe para a habitual porta de alumínio, cheia de autocolantes de refrescos, risos e cores. Sempre gostou daquela porta. Tinha tudo o que faltava à aldeia, agora ainda mais escurecida, e a prever chuva para dentro de pouco tempo. “Nunca pensei que a Rosa tivesse coragem. Mas o que devia fazer era ir viver com a filha”. Avançou devagar na praça, totalmente deserta. Pensar que ainda há duas semana toda a praça estava cheia de carrinhas das televisões. Durante dois dias não se falou de outra coisa na televisão lá de casa. “Que vergonha! O que estarão a pensar os de Santa Clara”. Mas há mais de uma semana, nem uma palavra da terra, apenas qualquer coisa de jogadores de futebol e incêndio numa cidade espanhola. “Ainda bem que acabou”. Mas para ele não tinha acabado, há duas semanas que pouco dormia a pensar na história “Nunca imaginei, mas já o pai dele era de má raça”. Nunca tinha visto nada assim, nem antigamente, quando eram centenas por ali. Agora eram só doze, quase todos velhos e secos. “Se calhar é por isso, as pessoas ficam doidas sozinhas”. Pensou então na sua mulher que morrera, pensou nos últimos 5 anos e nos últimos 5 Invernos. Puxou o casaco ainda mais para cima... “Ao menos já não assistiu a isto” Começou a chover devagar e entrou lentamente no café da Rosa. “Está igual”. A Rosa não estava ao balcão “Deve estar na cozinha”. Olhou em redor, tudo estava de facto igual, apenas a televisão estava apagada “Nunca a tinha visto sem estar ligada” e afinal não era o primeiro a chegar ao café, a Maria José já estava no canto habitual, precisamente por debaixo da televisão e a preparar-se para estar ali mais uma tarde sem dizer qualquer palavra a alguém. “Parece que nunca saiu dali”. O chão de azulejos verdes e pretos brilhava, nota-se que tinha sido lavado há pouco. “Quantas vezes deverá já ter lavado este chão?”. Recordou-se então dos gritos da Rosa que tinha ouvido à 15 dias, sim exactamente 15 dias “Deve ter sido por esta hora” e de ter corrido para o café a ouvir gritos, e ter visto todo aquele chão cheio de sangue, o Afonso morto pelo Sampaio, este que se tinha acabado de matar, o fim de querelas antigas, e o desespero da Rosa agora viúva. Olhou para a porta, agora chovia bem mais, mesmo ao lado da porta de alumínio dos autocolantes. Rosa tinha acabado de chegar da cozinha..limpava devagar as mãos molhadas à roupa preta. “Rosa, era um café.”