CAFÉ 1 (café doce)
Primeiro foram os provérbios. Provérbios argentinos nos pacotes de açúcar, mas que pareciam os mesmos de Portugal. E talvez fossem mesmo, envelhecidos, depois das malas de viagem, logo depois do início do século.
“Vejo Portugal em muito mais do que esperava..!”.
Depois, as fotos das praças da cidade. Buenos Aires e um ubíquo casal que dançava um público tango privado. Desses pacotes de açúcar ela gostou. Plaza del Congreso, Plaza Francia e Plaza de Mayo.”Teria escolhido as mesmas..!” Reconhecia o casal e os passos. Já os tinha visto no Bairro de San Telmo, hipnotizada, junto à sapataria, numas das suas primeiras tardes de Sábado a caminho da Plaza Dorrego.
”Teria escolhido os mesmos..!”.
Então vieram os cartoons, pequenos e indecifráveis, certamente divertidos para o estranho humor argentino, e com figuras que deveriam representar alguém.
”Quem serão..?”
E ultimamente.. esses extensíssimos textos... Tão extensos que com o café e o minúsculo pacote de açúcar, passaram a distribuir enormes lupas.
”Isto não faz nenhum sentido...!”
Encostou-se à habitual cadeira de madeira escura da habitual mesa do Tortoni. Era o canto mais elegante do Tortoni, e ela sabia-o. Era perfeita naquele lugar, mas não sei se o sabia. Tinha uma elegância estranhamente entristecida, uns olhos que prometiam resolver esse mistério, e um sorriso terno que o adensava… Confundia, e ela sabia-o... acabava inspirando devagar entre um sorriso escondido.
Naquele dia estava cansada do calor de Buenos Aires e estava cansada da luz das 3 da tarde. Estava também cansada dos turistas, mas como era hábito o Tortoni só lhe resolvia dois primeiros problemas. Olhou para os três grandes livros que pôs sobre a mesa... e suspirou, sem sorrisos. Recostou-se novamente na cadeira fria e olhou para a janela do outro lado da sala sem esperar ver coisa alguma. Rasgou o pacote de açúcar devagar e pôs todo açúcar no café.. flutua.. e de repente, afunda-se.... Mexe com a colher e bebe um pouco. Brinca com uma das mãos com a lupa. Põe-a sobre o desmesurado café, e sobre o gigante pacote de açúcar rasgado...“Esquece este café e razão porque o tomas e eleva-te. Esquece os dois dias anteriores a este e eleva-te. Esquece as pessoas que te rodeiam e o que elas esperam de ti e eleva-te. Esquece o que esperas das pessoas que te rodeiam e eleva-te. Esquece o lugar onde estás, esquece a razão porque estás aí e eleva-te. Esquece tudo o que gostas na vida e a razão porque gostavas delas. Eleva-te e fica aí um pouco..... Desce agora... devagar.. o que vês...?”
“Que merda de marketing ...!”
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