Tuesday, July 26, 2005

A propósito de mulheres com algo para dizer…

Domingo saí para um café. Passei pela alameda e pelo centro da festa de Santiago. Pipocas e sacos de plástico com músicos chilenos e CDs todos iguais entre bandeiras de revolucionários sul-americanos e motos japonesas num sorteio de peluches gigantes, numa montra gigante, com um animador incompreensível num microfone incompreensível, frente a uma enigmática população imóvel com bilhetes cor-de-rosa numa mão que espera peluches gigantes, que até ao momento só tinham visto chineses pequenos que sonhariam com um carro de pipocas como aquele, incógnito, junto à rua por onde saí... a caminho do café.

A saída da feira fica o resto. Das pessoas, do que se comprou, do que ainda se irá comprar, e o resto dos vendedores. E onde a feira era já insuspeita, vendedores de adornos supostamente exóticos, em caixas de madeira esguias, onde serão rapidamente guardados caso alguém lhes venha pedir as licenças municipais para a adornagem de orelhas, pescoços, pulsos e dedos. Ela estava aí, olhando com carinho o negócio exposto à passagem enquanto entrelaçava um colar, e eu olhei para uma pulseira por razões que não percebo, mas se percebesse, seriam certamente tão estúpidas como este meu pulso com uma tirinha de couro, ou tão essenciais quanto isso. Não percebo do negócio intimo, mas deveria ter vendido suficientes brincos para o olhar narcótico e brilhante, mas definitivamente poucos colares pelo corpo demasiado magro para comer bem, e, pelo ar cansado, menos anéis dos que se requerem para um razoável lugar com um colchão para se dormir. As pulseiras, essas seriam suficientes para pagar o bilhete do autocarro para uma próxima cidade. Pela minha descrição castelhana da pulseira escolhida, percebeu que eu não era descendente de Cervantes, e perguntou-me com a simpatia cúmplice dos estrangeiros em terra estrangeira de onde eu era. Sou Português. Ela era Argentina. E como é hábito, quando vivo fora, a surpresa sempre simpática de me saberem português. Falamos um pouco, iluminou-se quando falou de Madredeus que adorava e da Lisboa que nunca conheceu. Despedimo-nos depois de nos termos comprado a simpatia de passagem. Continuei na tarde de Santiago até ao café no local do costume.

À noite saí só, segundo parece a praça do obradoiro teria nessa noite o ponto alto do ano com o fogo de artifício na catedral, e teve. Iria passar novamente pela alameda para um concerto de música no outro lado da cidade e levei um CD dos Madredeus para dar à recente conhecida caso a visse no mesmo lugar, e vi. Fechava a loja numa mala agora que já tinha sido a meia noite de fogo. Cheguei perto dela e ofereci-lhe o CD. Entre os seus olhos silenciosos e surpresos de fogo de artifício, explicava-lhe porque escolhi aquele álbum. Agradeceu-me, e agradeceu-me novamente, com uma preciosa gratidão de que lembro poucas vezes na vida. Chama-se Laura. Eu chamo-me Luis. Dei-lhe dois beijos, e despedi-me. Sorriu novamente em silêncio e imóvel, rapidamente quis-me oferecer algo do que tinha e pôs-se a olhar com dúvidas para a montra privada da rua pública. Escolheu um pequeno livro feito à mão com folhas fotocopiadas. Existiam vários livros desses, todos iguais e com vários anos de malas escuras. Tinha uma mulher desenhada a esferográfica na capa e os cantos das páginas propositadamente queimados. Lá dentro poemas, desenhos e manchas de humidade nas folhas. Tudo parecia tão ingénuo e simples como olhar nervoso e feliz. “Os poemas são meus! Os desenhos fui eu também que fiz.” Percebi então que era realmente o que de mais precioso tinha para oferecer. Baixou-se e escreveu-me uma dedicatória no pequeno livro e ofereceu-me, juntamente com o seu sorriso de catedral fumegante. Deu-me novamente um beijo, e um pouco a medo, um grande e terno abraço. Despedi-me, não sei que mais lhe podia dizer quando se recebe uma alma com as devidas queimaduras feitas a medo, e afastei-me. Lembrei-me do Porto, de uma outra festa da cidade a propósito de um outro santo e de uma tarde deserta na ribeira, quando uma miudinha me veio vender um pequeno coração pintada a caneta de feltro vermelho, dentro de uma pequena caixa, devidamente deitado numa cama de algodão, medicinal, e branco. Devia ter percebido nessa altura a fragilidade desta coisa dos corações pintados a caneta de feltro, e mais ainda, quando imediatamente o dei a quem me acompanhava.

Atravessando a cidade comecei por ler a dedicatória. Era doce e eu seria um anjo. Sorri. Não, ela era doce, e talvez mais uma adepta da miríade de anjos prozaquianos voando entre mitologia feminina e deprimida. Como convém numa dedicatória a um anjo, teriam de se dar todos os contactos possíveis. Muitos dos anjos nos perdem realmente. Pelo “... _77@ ...” do mail, percebi que tinha a minha idade. Vi com detalhe alguns dos seus desenhos. Eram ingénuos e de uma nudez reservada a linhas finas. Intuitivamente, pareceu-me adivinhar toda a sua poesia.. Intuitiva e estupidamente! Guardei o livro no bolso do casaco.

A noite foi longa, normal dentro do possível, e anormal dentro do esperado.

No final da noite, ainda no Centro de Santiago, resolvi ler o livro entre um cigarro...

Percebi que tinha escrito toda a poesia quando tinha 23 anos, e percebi que tinha vivido nesse ano um grande amor, grandes descobertas, e uma grande separação... e tudo era.. admirável e.. muito bonito! Li todos os poemas e senti um ano de emoções entre lugares de Buenos Aires e recantos íntimos de palavras exactas em expressões insuspeitas...


Querida Laura, não terás queimado demasiado a pontas das folhas dos últimos 5 anos?